Em 2025, enquanto a sigla ASG seguia sendo repetida à exaustão em relatórios e discursos, o Village Itaparica preferiu organizar seus números e observar o que, de fato, ficou no território. O balanço do ano nasce desse exercício. Menos intenção declarada, mais leitura do que foi construído ao longo do caminho.
O plástico ajuda a contar essa história. A partir de setembro, resíduos que antes circulavam sem destino passaram a ganhar outra forma dentro da oficina de transformação instalada no empreendimento. Dali saíram 52 móveis e peças utilitárias produzidos a partir de material reaproveitado. O dado é concreto, mas o efeito vai além do objeto final. Ele reorganiza relações entre trabalho, renda e responsabilidade ambiental.

Essa mudança aparece com ainda mais nitidez quando se olha para quem está na base da cadeia. Aproximadamente 1,5 tonelada de plástico PP foi retirada do descarte e direcionada à reciclagem, parte dela adquirida diretamente de catadores locais por valores acima do mercado. O aumento na remuneração altera mais do que a renda. Ajusta a lógica de reconhecimento. “A gente passa a se sentir visto”, resume Manoel Dionísio, um dos participantes.
O mesmo movimento atravessa o trabalho desenvolvido com as mulheres artesãs. Sem criar um discurso à parte, a oficina abriu espaço para que elas ampliassem sua atuação, transformando resíduos em produtos com maior valor agregado. O resultado aparece na autonomia financeira e na percepção sobre o próprio ofício. “O que antes era lixo hoje gera trabalho”, diz Fernanda Miranda, moradora de Jiribatuba, no território de Vera Cruz.

Enquanto isso, fora do eixo da produção, o cuidado com o ambiente seguiu outro ritmo. O viveiro educador funcionou como espaço permanente de aprendizado, não apenas de cultivo. Ao longo do ano, cerca de 6 mil mudas foram produzidas e utilizadas em ações de reflorestamento, paisagismo e atividades educativas com escolas e comunidades do entorno. Plantar, aqui, foi também uma forma de criar vínculo.

A compostagem fecha esse ciclo de maneira silenciosa. Entre outubro e dezembro, mais de mil quilos de resíduos orgânicos foram processados, resultando em cerca de 825 quilos de adubo. O sistema reduz o envio de resíduos ao aterro e encurta o tempo de decomposição, apontando para uma operação que tende a crescer junto com o próprio empreendimento.
No campo social, os encontros com catadores seguiram a mesma lógica das demais ações: menos evento, mais processo. Reunidos em espaços de escuta e formação, 11 trabalhadores participaram de conversas sobre organização do trabalho, saúde, separação de materiais e agregação de valor. O impacto não está apenas no conteúdo, mas na continuidade dessas trocas.
Outras frentes correram em paralelo, como as ações permanentes de educação ambiental, o Projeto Empreender Feminino, que ofereceu capacitação e mentoria a 48 mulheres, além do apoio a iniciativas culturais das comunidades vizinhas e da incorporação gradual da agenda ASG às rotinas internas.

Na governança, 2025 marcou o início de uma etapa mais estruturada, com a criação do Comitê de Diversidade e Inclusão. Formado por colaboradores de diferentes áreas, o grupo começou pelas conversas difíceis, aquelas que nem sempre cabem em protocolos: equidade, respeito e escuta. O plano de ação para 2026 está em construção, mas o tom já foi dado.
O balanço do Village Itaparica não aponta soluções prontas nem encerra debates. Ele organiza aprendizados. Mostra que, quando a agenda ASG deixa de ser um departamento isolado e passa a atravessar decisões cotidianas, o impacto aparece de forma menos ruidosa e mais duradoura. Num cenário em que muitos ainda falam sobre sustentabilidade, há quem prefira tratá-la como método.