Guarujá inaugura galeria de arte a 8,5 metros de profundidade para impulsionar o turismo de mergulho, criar recifes artificiais e atrair visitantes o ano inteiro. A iniciativa lança luz sobre um potencial que a maior baía navegável do país ainda explora de forma tímida.
Enquanto boa parte dos destinos turísticos brasileiros continua olhando para a faixa de areia, o litoral paulista acaba de inaugurar um atrativo que convida os visitantes a olhar para o fundo do mar.
Na última sexta-feira (19), o Guarujá abriu oficialmente o Centro de Visitação Subaquático, considerado o primeiro equipamento do gênero em água salgada no Brasil e apresentado como o primeiro da América Latina. O espaço fica a cerca de 500 metros da Praia do Guaiúba, próximo à Ilha do Mato, onde quinze esculturas monumentais foram instaladas a aproximadamente 8,5 metros de profundidade, transformando o leito marinho em uma galeria acessível apenas a mergulhadores.
Embora a inauguração tenha ocorrido agora, a operação começou meses antes. Em março, as esculturas foram transportadas por embarcações e cuidadosamente submersas após estudos de viabilidade técnica apontarem que aquele trecho apresentava boa visibilidade ao longo da maior parte do ano e condições adequadas para visitação e colonização pela vida marinha.
O acervo reúne obras do escultor Adélio Sarro, artista com mais de cinco décadas de carreira. São quinze peças de concreto neutro, algumas com até 2,45 metros de altura e mais de três toneladas, representando nomes como Santos Dumont, Cândido Portinari, São Francisco de Assis, o poeta Oswaldo de Camargo e Fernando Lee, além de personagens ligados à identidade marítima da Baixada Santista, como pescadores, indígenas, surfistas, estivadores, marinheiros e sereias.
As esculturas foram concebidas para cumprir uma dupla função: além da arte, servir como atrativo turístico e atuar como recifes artificiais. Ao longo dos próximos anos, a expectativa é que sejam colonizadas por algas, esponjas, cracas e outros organismos marinhos, tornando-se abrigo para diversas espécies de peixes e aumentando a biodiversidade local. É uma estratégia já adotada em museus subaquáticos de países como México e Espanha, onde arte, conservação e turismo caminham juntos.

Um turismo que movimenta muito mais do que mergulhadores
O turismo de mergulho figura entre os segmentos de maior valor agregado do turismo de natureza. Diferentemente do visitante de um bate-volta de praia, o mergulhador costuma permanecer mais dias no destino, contratar embarcações, guias especializados, escolas de mergulho, aluguel de equipamentos, hospedagem e gastronomia. Em muitos casos, também retorna diversas vezes ao mesmo local para explorar novos pontos de mergulho.
É esse perfil que São Paulo pretende atrair. A visita ao centro subaquático é gratuita, mas depende da contratação de operadoras credenciadas e de infraestrutura náutica, fortalecendo uma cadeia econômica que vai muito além do passeio em si.
E a Baía de Todos-os-Santos?
Poucos lugares no Brasil reúnem tantos atributos para o turismo subaquático quanto a Baía de Todos-os-Santos.
Com águas relativamente abrigadas durante boa parte do ano, dezenas de ilhas, rica biodiversidade e um patrimônio histórico singular, a BTS já é considerada um dos principais destinos brasileiros para o mergulho em naufrágios. Entre os pontos mais conhecidos estão o Blackadder, cargueiro britânico afundado em 1916; o Maraldi, outro naufrágio bastante procurado por mergulhadores experientes; e os ferries Agenor Gordilho e Juracy Magalhães, afundados propositalmente em 2019 e 2025 para funcionar como recifes artificiais e ampliar a oferta de mergulho recreativo.
Esses sítios já cumprem parte da função ambiental observada no projeto paulista: atraem vida marinha, criam novos habitats e ajudam a distribuir a pressão sobre áreas naturais. O que ainda falta é integrá-los a uma narrativa turística mais ampla, capaz de transformar esses pontos em um produto estruturado, reconhecido nacional e internacionalmente.
Hoje, quem mergulha na BTS geralmente chega por indicação de operadoras especializadas ou por comunidades de mergulho. O destino é valorizado entre praticantes, mas permanece pouco conhecido do grande público, especialmente quando comparado a polos consolidados como Fernando de Noronha, Abrolhos ou Bonito.
Pode estar aí a principal lição do Guarujá.
O diferencial do projeto paulista não é apenas instalar esculturas no fundo do mar. É transformar um patrimônio subaquático em uma experiência cultural, educativa e turística, com identidade própria, comunicação consistente e capacidade de gerar desejo antes mesmo do visitante vestir a roupa de neoprene.
A Baía de Todos-os-Santos já possui história, biodiversidade, naufrágios, infraestrutura de mergulho e um dos cenários marítimos mais ricos do país. A pergunta que fica é se falta mar — ou se falta transformar tudo isso em um produto turístico com a força da própria baía.
Fotos: divulgação
