Trinta novas colônias de coral já estão no Recife das Pinaúnas, em Mar Grande, na Ilha de Itaparica, dando início à etapa de implantação prevista pelo Projeto Mares. O primeiro transplante foi realizado no fim de agosto pelos próprios participantes do Curso Técnico de Restauração de Corais e abre caminho para uma meta bem maior: chegar a cinco mil novas colônias implantadas até fevereiro de 2030.
A espécie escolhida é a Millepora alcicornis, coral nativo encontrado nos ambientes recifais da região. As primeiras colônias foram implantadas na área da Praia do Duro, dentro da Área de Proteção Ambiental Recife das Pinaúnas, em uma operação que também marcou a conclusão de quatro meses de formação técnica.
A escala prevista para os próximos anos ajuda a dimensionar o trabalho. A área total de atuação do projeto ocupa 1,5 km², com oito pontos definidos para acompanhamento, sendo quatro destinados ao plantio e outros quatro utilizados como áreas de controle. A comparação entre esses locais permitirá observar, ao longo do tempo, como os ambientes restaurados respondem em relação aos trechos sem intervenção.
Da sementeira para o recife
A implantação das 30 colônias fecha um ciclo que os alunos acompanharam praticamente do início ao fim. Foram 112 horas de formação teórica e prática, iniciadas em maio, passando pela produção das sementeiras, montagem e manutenção dos berçários até chegar à fixação dos corais no ambiente natural.
“A atividade marcou a fase final do curso, a última aula prática, quando os próprios alunos fizeram o plantio. Depois de aprenderem a teoria e passarem pela prática de confecção das sementeiras e dos berçários, eles fecharam a formação com a manutenção, a limpeza e a fixação das colônias no recife”, explica o biólogo Ricardo Miranda, coordenador científico do Projeto Mares.
A formação abordou ecologia e conservação dos recifes, mudanças climáticas, restauração ativa, monitoramento ambiental, mergulho, educação ambiental, áreas marinhas protegidas e turismo sustentável. A proposta foi fazer com que o conhecimento sobre os recifes não permanecesse apenas na sala de aula, mas pudesse ser aplicado no próprio território onde o processo de recuperação acontece.
Essa formação terá continuidade prática. Os participantes poderão atuar como monitores nas próximas ações de restauração do Projeto Mares, ampliando o número de pessoas da região capacitadas para trabalhar nas diferentes etapas desenvolvidas no Recife das Pinaúnas.
Plantar é só o começo
Colocar o coral no recife não encerra o trabalho. A partir da implantação, começa uma fase decisiva de acompanhamento das novas colônias.
Segundo Ricardo Miranda, os corais estavam saudáveis no momento da fixação e serão monitorados pela equipe científica para avaliar fatores como sobrevivência, fixação, crescimento e vitalidade, além da eventual ocorrência de branqueamento, doenças e mortalidade.
O acompanhamento também olhará para o que acontece ao redor deles. Conforme as colônias crescem e criam novos ramos, sua estrutura pode oferecer abrigo para outros organismos do ambiente recifal. Por isso, os pesquisadores vão observar a presença de peixes e pequenos invertebrados móveis, como caranguejos e poliquetas.
“À medida que os corais crescem e formam novos ramos, aumentam também os espaços disponíveis para abrigo e habitat de outros organismos”, explica Miranda.
Vídeos, fotografias e técnicas de fotogrametria serão utilizados para transformar as mudanças na estrutura dos corais em dados que possam ser comparados ao longo dos anos. Além da sobrevivência das próprias colônias, o projeto pretende acompanhar a ocorrência de espécies associadas aos recifes, inclusive aquelas relevantes para atividades como a pesca.
Conhecimento que permanece na Ilha
A restauração também deixa outro tipo de estrutura em Itaparica: gente capacitada para compreender, acompanhar e participar desse processo.
Na avaliação realizada ao final do curso, todos os participantes afirmaram compreender melhor a importância dos recifes de corais e manifestaram interesse em aplicar os conhecimentos adquiridos. Também foram unânimes, com nota 10, ao responder se recomendariam a formação a outra pessoa. Entre as experiências mais citadas estão justamente as atividades práticas, a montagem e manutenção dos berçários e a restauração dos corais.
Moradora de Vera Cruz e engenheira de produção, Ainoã Souza conta que entrou no curso buscando novas experiências e terminou a formação com outra percepção sobre o ambiente onde vive.
“Pensei que seria apenas um curso, mas ele me trouxe uma nova visão de mundo, não só sobre os ecossistemas marinhos, mas também sobre conexão com as pessoas e troca de vivências”, afirma.
Para a ecóloga Evelyn Palhano, moradora de Barra Grande, também em Vera Cruz, a aproximação com o ambiente marinho e com a própria comunidade foi um dos principais resultados da experiência. Segundo ela, a formação ampliou seu conhecimento sobre os recifes e sobre a Ilha de Itaparica.
Conduzido pela equipe multidisciplinar da PRÓ-MAR, com profissionais convidados de outras instituições de pesquisa, o curso teve coordenação científica de Ricardo Miranda e supervisão de mergulho e instrução de Rodrigo Maia Nogueira. A formação integra as ações do Projeto Mares, iniciativa da ONG Socioambientalista PRÓ-MAR em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
As 30 colônias implantadas representam uma pequena fração das cinco mil previstas até 2030, mas cumprem uma função importante: colocam em campo uma nova etapa do trabalho de restauração e, ao mesmo tempo, deixam na Ilha de Itaparica pessoas preparadas para participar dele. Recuperar um recife exige tempo, acompanhamento científico e continuidade. Agora, além dos corais que começam a ocupar novos espaços no Recife das Pinaúnas, esse conhecimento também permanece com quem vive no território.





