Tombado pelo Iphan e ainda em atividade, o Sombra da Lua recebe projeções de videomapping nesta sexta (2), na Rampa do Mercado. Programação gratuita começa às 18h e ocupa também a Casa das Histórias e a Praça Maria Felipa
Há cerca de um século, o Sombra da Lua foi construído para navegar. Nesta sexta-feira (2), sua vela terá outra função: será transformada em uma grande superfície de projeção, diante da Baía de Todos-os-Santos.
A partir das 19h30, na Rampa do Mercado, imagens em movimento, luz e trilhas sonoras serão projetadas sobre a embarcação na instalação “Saveiro como Tela”, uma experiência que aproxima duas linguagens aparentemente distantes: a carpintaria naval tradicional da Bahia e a arte digital contemporânea.
O encontro ganha força justamente pelo barco escolhido.
Construído provavelmente em 1923, o Sombra da Lua preserva características originais dos antigos saveiros de vela de içar que durante décadas fizeram a circulação de mercadorias entre Salvador e o Recôncavo. Com 12,5 metros de comprimento, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e está entre as raríssimas embarcações individualmente protegidas pelo órgão no país. Serviços e Informações do Brasil
Há ainda uma coincidência histórica difícil de ignorar: segundo o Iphan, ele é o único saveiro que ainda atraca na Rampa do Mercado Modelo, justamente o lugar escolhido para a projeção desta sexta. Serviços e Informações do Brasil
Ou seja, não será simplesmente um barco servindo de suporte para imagens. A intervenção acontece em um ponto diretamente ligado à memória da navegação que pretende evocar.
Quando a vela conta outras histórias
A instalação nasceu no VJ Lab, programa de formação e inovação do Festival SSA Mapping, a partir de um laboratório conduzido pelo Coletivo Coletores. Artistas, VJs, designers, arquitetos, pesquisadores e profissionais do audiovisual de diferentes estados trabalharam na criação das peças. Agenda Cultura
O resultado são cinco obras autorais que passam por memória, território, ancestralidade e cultura marítima: “Embarcações de Memórias”, do Grupo Pérola; “Grande Mar Interior”, do Grupo MamiFERAS; “A navegar”, do Coletivo Poxim; “Travessia, coração e carcaça”; e “Yawara eté, estamos aqui”. marbahia
A experiência de vê-las sobre uma vela acrescenta uma camada que uma tela convencional dificilmente teria. O suporte também conta uma história.
Saveiros como o Sombra da Lua transportaram alimentos, cerâmicas e outros produtos entre o Recôncavo e Salvador quando a Baía era uma das principais vias de circulação da região. Essas embarcações atravessaram também a construção do imaginário visual e cultural baiano, aparecendo na literatura de Jorge Amado, nas canções de Dorival Caymmi, nas fotografias de Pierre Verger e nas obras de Carybé. Serviços e Informações do Brasil
Agora, um exemplar sobrevivente dessa história recebe pixels.
Uma noite de arte pelo Comércio
“Saveiro como Tela” encerra um pequeno circuito gratuito de arte e tecnologia pelo Comércio.
A programação começa às 18h, com uma obra imersiva na Casa das Histórias de Salvador. Às 18h30, um carrinho de café adaptado como projetor, batizado de Trovão Tropical, percorre a Praça Maria Felipa usando superfícies da cidade para exibir trabalhos audiovisuais. Às 19h30, a atenção se desloca para a Rampa do Mercado e para a vela do Sombra da Lua. Agenda Cultura
É uma programação curta, mas com uma escolha simbólica interessante para uma cidade voltada para o mar e que nem sempre percebe quanto de sua história continua flutuando diante dela.
Nesta sexta, vale olhar para a Rampa com um pouco mais de atenção.
O Sombra da Lua já atravessou a Baía carregando mercadorias. Desta vez, vai carregar imagens.




