Há quinze anos o Forte São Marcelo permanece de costas para Salvador — ou talvez seja Salvador que permanece de costas para ele. Erguido em pleno mar da Baía de Todos-os-Santos, a poucos minutos de barco do Mercado Modelo, o forte circular que atravessou invasões holandesas, guerras de independência e décadas de abandono institucional pode, enfim, ter encontrado o caminho de volta à vida pública. Na primeira semana de maio de 2026, o Governo da Bahia formalizou com a União o que turistas, historiadores e operadores do setor já esperavam há muito tempo: a transferência da gestão do Forte São Marcelo e da Fortaleza de Morro de São Paulo para a administração estadual, abrindo um novo capítulo na relação da Bahia com seu próprio patrimônio.
O termo de cessão gratuita foi assinado no auditório da Superintendência do Patrimônio da União, na Avenida Jequitaia, na Cidade Baixa, em Salvador, em cerimônia que reuniu dirigentes de entidades dos setores de viagens e do comércio. Os equipamentos, que pertencem à União, foram cedidos por um prazo de vinte anos, o que dá à Secretaria de Turismo da Bahia margem suficiente não apenas para restaurar as estruturas, mas para construir um modelo sustentável de uso cultural e turístico (algo que acordos mais curtos raramente permitem).
A grandeza simbólica do Forte São Marcelo vai muito além de sua silhueta redonda recortada contra o céu baiano. Erguido em 1623, durante o governo de D. Diogo de Mendonça Furtado, o forte nasceu com uma missão clara de proteger Salvador de invasões estrangeiras e se destaca até hoje por sua arquitetura singular — é o único exemplar circular de fortificação portuguesa no Brasil. Esse detalhe, que poderia parecer mera curiosidade técnica, transforma o forte em algo raro dentro do inventário do patrimônio nacional: um monumento sem par, sem equivalente em nenhuma outra cidade do país, cuja ausência dos roteiros turísticos se tornara, ao longo dos anos, um desperdício difícil de justificar.
Entre 2006 e 2011, quando funcionou como Centro Cultural Forte de São Marcelo, o espaço abrigou museus como Memórias do Mar, Memórias da Cidade e Memórias do Forte, além de restaurante e loja de lembranças, recebendo cerca de 400 mil visitantes, um terço deles estudantes. Fechado desde então por questões administrativas e judiciais que envolveram a disputa de sua tutela entre o estado e o governo federal, o forte acumulou anos de manutenção precária enquanto a paisagem ao seu redor seguia sendo fotografada por gerações de turistas que jamais puderam pisar em seu interior.
A nova gestão chega com ambições que vão além da simples reabertura. Estão previstas obras de requalificação que incluem recuperação do atracadouro, modernização das instalações elétrica e hidráulica e intervenções na estrutura geral, com a proposta de transformar o local em um polo cultural e turístico multifuncional, com eventos, atividades culturais e serviços de gastronomia no interior do forte. O processo licitatório para as obras deve ser lançado em breve, com estimativa de duração de 120 dias para a execução das intervenções antes da abertura ao público.
A outra protagonista desse movimento é a Fortaleza de Morro de São Paulo, na ilha de Tinharé, no município de Cairu. Menos visível nos debates sobre patrimônio urbano, mas igualmente carregada de história, ela guarda a entrada do canal de Tinharé com a mesma solenidade de séculos. Para esse equipamento, a proposta do governo estadual inclui a retomada da visitação turística e a implantação de um Centro de Atendimento ao Turista, com intervenções previamente aprovadas pelo Iphan. Em um destino que já atrai visitantes pelo seu conjunto de praias e pousadas, a reativação da fortaleza representa uma camada adicional de sentido para quem chega à ilha — a possibilidade de entender o lugar não apenas como paraíso natural, mas como território de memória.
Para o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem na Bahia, Rogério Ribeiro, trata-se de uma vitória a ser comemorada, já que são mais atrativos entrando no portfólio das agências depois de muito tempo fechados. A reação do setor não é apenas entusiasmo protocolar: na prática, cada novo equipamento cultural reaberto ao público amplia o tempo médio de permanência do turista na cidade, diversifica os roteiros disponíveis e reduz a concentração excessiva em pontos já saturados. Salvador, que tem na riqueza histórica do seu Centro Antigo um dos argumentos mais poderosos de atração turística, ganha com isso um argumento que estava literalmente parado no meio do mar.
O secretário de Turismo, Maurício Bacelar, resumiu a expectativa do governo com a objetividade de quem sabe que a retórica já durou tempo demais: segundo ele, a volta dos equipamentos aos roteiros turísticos é mais uma ação do Estado na qualificação do Centro Antigo de Salvador, com compromisso de garantir segurança e comodidade na visitação. O que se espera, agora, é que a velocidade das obras corresponda à grandeza do que está em jogo — porque o Forte São Marcelo já esperou quinze anos, e a Baía de Todos-os-Santos merece um cartão-postal que se possa, finalmente, visitar por dentro.
Foto: Dronestag