Salvador pode estar prestes a decidir o destino de um dos terrenos mais estratégicos da sua orla. O antigo Centro de Convenções da Bahia, fechado há quase uma década e marcado por um histórico de abandono, será leiloado no próximo dia 26 de março, com lance inicial de R$ 141,3 milhões.
Pelo edital, quem adquirir o imóvel terá que cumprir uma exigência clara: demolir a estrutura existente em até oito meses após a compra.
Mas uma provocação feita recentemente pelo portal @nossocostaazul e comentada pelo professor José Rodrigues, pesquisador da área de economia do mar, colocou uma nova ideia em circulação: e se Salvador ganhasse ali o seu primeiro oceanário?
A pergunta foi levantada pelo professor José Rodrigues, do Instituto Federal Baiano (IF Baiano), ao comentar nas redes sociais a notícia do leilão. O professor defende que a cidade aproveite o momento para discutir qual deve ser o melhor uso para um dos terrenos mais valiosos da capital.
“Eu acho que seria bom discutir. Poderia ser uma estratégia diferente, inclusive com potencial de retorno financeiro e social. Um projeto como um oceanário seria fantástico para Salvador”, afirma.
De símbolo do turismo ao abandono
O antigo Centro de Convenções foi inaugurado em 1979 e, durante décadas, foi um dos principais equipamentos para o turismo de eventos da Bahia. Congressos internacionais, feiras e encontros passaram pelo espaço, ajudando a movimentar a economia da cidade.
A decadência começou na década passada. O prédio foi interditado em 2015 por problemas estruturais e de segurança. No ano seguinte, parte da estrutura desabou, deixando três pessoas feridas e acelerando o processo de abandono.
Desde então, o imóvel se transformou em um grande esqueleto de concreto à beira-mar. Rachaduras, ferrugem e sinais de vandalismo passaram a marcar o cenário de quem vive na região.
Enquanto isso, Salvador ganhou um novo centro de convenções municipal na área do antigo Aeroclube, na Boca do Rio, inaugurado em 2020.
Agora, o terreno original — com cerca de 187 mil metros quadrados — volta ao debate público.
E com uma diferença importante: quem comprar poderá definir livremente a destinação do espaço, respeitando apenas as regras urbanísticas e ambientais.

A provocação: “um oceanário seria fantástico”
Para o professor José Rodrigues, o momento abre uma janela rara para pensar grande.
Segundo ele, Salvador tem todas as condições para receber um equipamento ligado ao mar, que combine ciência, turismo e educação ambiental.
“Seria realmente uma outra estratégia. Algo que dialogasse mais com a vocação da cidade, com o mar e com a economia azul”, diz.
Ele explica que a sugestão surgiu quase como um impulso ao ver a notícia do leilão.
“Foi uma coisa pontual. Eu comentei a publicação e publiquei no Instagram. Mas a ideia é justamente provocar essa discussão. Quem sabe a gente consegue pensar um projeto ali que tenha mais a ver com Salvador.”
Oceanários costumam ser equipamentos turísticos e científicos importantes em cidades costeiras. Além de atrair visitantes, funcionam como centros de pesquisa, conservação e educação ambiental.
Para uma cidade com mais de 50 quilômetros de litoral, a ideia soa, no mínimo, pertinente.
Um projeto que poderia ir além do prédio
A discussão, porém, não se limita ao edifício que será demolido.
Nos fundos do antigo centro de convenções existe uma área ambiental sensível, com remanescentes de dunas e Mata Atlântica, hoje bastante degradados.
Rodrigues defende que qualquer novo projeto poderia incorporar a recuperação desse ecossistema.
“Ali existem resquícios das dunas que iam da Pituba até aquela região. Boa parte foi ocupada ao longo do tempo, mas ainda restam áreas importantes que hoje são de proteção permanente”, explica.
Segundo ele, essas dunas já não poderiam mais ser ocupadas hoje pela legislação ambiental.
“São áreas de preservação permanente. Só que estão sofrendo muita degradação, com ocupação irregular e impacto sobre a vegetação.”
Daí surge outra proposta complementar: transformar o entorno em um parque urbano ambiental.
“Seria possível pensar um projeto que integrasse essa área de preservação com o novo empreendimento. Um parque, uma unidade de conservação para uso da população.”
O sonho de um “Parque das Dunas” soteropolitano
Rodrigues lembra que a ideia não é nova entre moradores da região do Costa Azul.
Ele mesmo cresceu frequentando aquelas dunas.
“Eu me criei subindo aquela duna. Hoje elas estão muito degradadas e mereceriam um projeto de recuperação.”
A inspiração poderia vir de experiências já consolidadas na capital, “algo nos moldes do Parque das Dunas, localizado entre o aeroporto e a Lagoa do Abaeté. Uma unidade de conservação urbana integrada ao espaço público”.
Na visão dele, a combinação poderia gerar um novo polo para Salvador.
Um equipamento turístico de grande porte, como um oceanário, conectado a uma área de preservação ambiental com dunas, nascentes e remanescentes da Mata Atlântica.
Uma decisão que pode redefinir a área
O futuro do terreno ainda é uma incógnita.
Construtoras e investidores já demonstraram interesse na área, considerada altamente valorizada por estar entre bairros consolidados e próxima ao novo centro de convenções da cidade.
Hotel, shopping, complexo imobiliário ou equipamento turístico: qualquer uma dessas possibilidades pode surgir.
Por isso, para Rodrigues, a discussão precisa acontecer agora.
“Eu não tenho um braço para abraçar e fazer todo o projeto. Mas a sociedade pode debater. Esse é um espaço estratégico demais para Salvador.”
Ele resume a provocação de forma simples:
“Quem sabe a cidade não aproveita essa oportunidade para criar algo realmente simbólico? Um oceanário, por exemplo, seria fantástico.”
Imagem ilustrativa, criada por inteligência artificial.